A menopausa precoce, ou insuficiência ovárica prematura, continua a ser um dos maiores desafios na área da fertilidade. Para muitas mulheres, as opções disponíveis ainda são limitadas. No entanto, novos avanços científicos começam a desenhar um cenário mais promissor.
Na 42.ª Reunião Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), em Londres, foram apresentados vários estudos que apontam para novas formas de compreender, preservar e até recuperar a função do ovário.
Uma estratégia que atua no ambiente do ovário
Um dos estudos em destaque, liderado pela Dra. Sonia Herraiz, da Fundação IVI, explorou uma abordagem baseada em fatores de crescimento derivados de células estaminais. O objetivo foi restaurar parcialmente a função de ovários afetados pela menopausa precoce.
Os resultados mostram melhorias relevantes ao nível do stress celular, do metabolismo e da estrutura do tecido ovárico. Esta combinação levou a uma recuperação parcial da função do ovário e a um aumento significativo do número de ovócitos obtidos.
Mais do que um avanço isolado, este trabalho reforça uma ideia importante: o ambiente molecular do ovário tem um papel determinante e, acima de tudo, pode ser modulado. Isso abre caminho a novas abordagens terapêuticas para mulheres que hoje têm poucas opções.
Recriar o ovário em laboratório
Outro passo relevante passa por recriar, fora do corpo, as condições naturais do ovário.
A equipa coordenada pela Dra. Irene Cervelló apresentou um hidrogel desenvolvido a partir de tecido ovárico tratado e combinado com alginato. Este material consegue preservar componentes essenciais, como o colagénio e a laminina, e reproduzir tanto a estrutura física como os sinais bioquímicos do ovário.
Esta plataforma tridimensional permite estudar de forma mais precisa o funcionamento do ovário e poderá, no futuro, facilitar o desenvolvimento de novas estratégias para restaurar a fertilidade, especialmente em mulheres que perderam a função ovárica devido a doenças ou tratamentos como a quimioterapia.
Dar nova oportunidade a ovócitos descartados
Um terceiro estudo apresenta uma nova perspetiva sobre um problema comum na fecundação in vitro: uma parte significativa dos ovócitos recolhidos não chega à maturação e acaba por ser descartada.
A investigação liderada pela Dra. Marga Esbert revelou que estes ovócitos não apresentam alterações genéticas estruturais. Em vez disso, as dificuldades parecem estar relacionadas com fatores como o stress oxidativo e o funcionamento das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia.
Ao melhorar o meio de cultura com antioxidantes, foi possível aproximar o perfil destes ovócitos ao daqueles que amadurecem naturalmente. Isto sugere que muitos deles têm potencial, mas precisam de condições mais favoráveis para o expressar.
A par deste trabalho, uma investigação coordenada pela Dra. Sofia Nunes, do IVI Lisboa, identificou proteínas que poderão desempenhar um papel importante na maturação dos ovócitos e na correta distribuição dos cromossomas — um passo essencial para compreender melhor os fatores que influenciam a sua qualidade.
Mais do que quantidade, qualidade
Em conjunto, estes estudos mostram uma mudança clara na forma como abordamos a fertilidade. O foco já não está apenas em aumentar o número de ovócitos disponíveis, mas em compreender e melhorar as condições biológicas que determinam a sua qualidade e viabilidade.
Como resume o Dr. Samuel Ribeiro, diretor clínico do IVI Lisboa, estamos perante uma evolução significativa: o objetivo passa por desenvolver estratégias capazes de preservar ou recuperar a função do ovário e a qualidade dos ovócitos, elementos centrais para o sucesso reprodutivo.
Embora muitas destas abordagens ainda estejam em fase experimental, os resultados apresentados são consistentes e apontam numa direção muito concreta: tratamentos mais eficazes para formas complexas de infertilidade.
Um futuro com mais possibilidades
Estes avanços mostram que a medicina reprodutiva está a entrar numa fase mais sofisticada e personalizada. Ao compreender melhor os mecanismos que regulam o funcionamento do ovário, abre-se a possibilidade de intervir de forma mais precisa e eficaz.
Para muitas mulheres, sobretudo aquelas que enfrentam a menopausa precoce ou outras condições que comprometem a fertilidade, estas investigações representam mais do que progresso científico — representam novas possibilidades.
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