A idade materna costuma estar no centro das conversas sobre fertilidade. Mas essa realidade está a mudar. Novos estudos mostram que a idade do homem também tem um impacto relevante e até agora subvalorizado. Conheça as principais conclusões de um estudo sobre fertilidade masculina.
Homens com mais de 45 anos apresentam mais mutações no esperma: o que isto significa para a fertilidade?
Um estudo apresentado na 42ª Reunião Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) revela um dado claro: homens com mais de 45 anos apresentam mais 31% de mutações no esperma quando comparados com homens com menos de 30.
Este dado levanta novas questões sobre como avaliamos a fertilidade masculina e pode abrir caminho a mudanças na prática clínica.
Nem todas as mutações são detetáveis nos testes atuais
Tradicionalmente, os testes genéticos baseiam-se na análise de sangue, assumindo que este reflete o perfil genético de todo o organismo. No entanto, este estudo mostra que essa abordagem pode não ser suficiente.
Segundo a Dra. Patricia Díaz-Gimeno, investigadora da Fundação IVI:Existem mutações que aparecem apenas no esperma e não são detetadas em análises sanguíneas. Apesar de passarem despercebidas, podem ser transmitidas ao futuro bebé. Ou seja, há informação genética relevante que pode estar a ser ignorada nos exames atuais.
O impacto da idade paterna na saúde da descendência
Até há pouco tempo, a idade do homem não era considerada um fator de risco significativo. Este estudo vem contrariar essa ideia.
Além do aumento global de mutações, foram identificadas alterações associadas a diferentes condições de saúde, nomeadamente:
- Perturbações do sistema nervoso
- Espectro do autismo
- Deficiência intelectual
- Doenças cardiovasculares graves
- Patologias hepáticas
- Imunodeficiências severas
- Processos relacionados com cancro
Embora nem todas estas mutações tenham impacto direto, o seu aumento com a idade levanta preocupações clínicas relevantes.
Pode ser necessário mudar a forma como avaliamos a fertilidade masculina
Os resultados apontam para a necessidade de rever protocolos atuais.
Atualmente, os testes genéticos de portadores não incluem análise específica do esperma. Mas os investigadores sugerem uma evolução:
- Incluir análise genética diretamente no esperma
- Aplicar este tipo de teste de forma mais ampla
- Dar especial atenção a homens com mais de 45 anos
- Reavaliar critérios em contextos como a doação de esperma
No IVI, esse limite foi definido nos 44 anos, precisamente com base em evidência científica.
Novas pistas para melhorar a seleção embrionária
Durante o congresso, foi apresentado também um segundo estudo que ajuda a compreender melhor o desenvolvimento embrionário.
A investigação analisou as diferenças entre:
- Embriões euploides (com número correto de cromossomas)
- Embriões aneuploides (com alterações cromossómicas, frequentemente associadas a falhas de implantação ou aborto precoce)
Através da análise das moléculas libertadas pelos embriões nas primeiras fases de desenvolvimento, os investigadores concluíram que:
Os embriões com alterações comportam-se de forma diferente desde muito cedo.
Este conhecimento permite identificar, com maior precisão, quais os embriões com maior probabilidade de sucesso.
Caminhamos para tratamentos de fertilidade cada vez mais personalizados
Os avanços nesta área apontam para uma mudança importante: tratamentos cada vez mais adaptados ao perfil biológico de cada paciente.
Segundo o Dr. Francisco Domínguez:
A qualidade genética do embrião é determinante desde o início, e estes estudos ajudam a melhorar a seleção e a aumentar as probabilidades de sucesso.
Na prática, isto pode traduzir-se em:
- Maior eficácia nos tratamentos de medicina da reprodução
- Melhor seleção embrionária
- Redução da incerteza nos processos
- Abordagens mais personalizadas
O que muda a partir daqui?
Este conjunto de evidências reforça uma ideia fundamental: a fertilidade deve ser analisada de forma integrada, incluindo tanto o fator feminino como masculino.
Para profissionais de saúde e pacientes, isto poderá significar:
- Novas recomendações clínicas
- Mais testes genéticos direcionados
- Maior consciencialização sobre a idade paterna
Conclusão
O estudo apresentada na ESHRE marca um passo importante na forma como entendemos a fertilidade masculina.
Ao demonstrar que o esperma acumula mutações com a idade, muitas delas invisíveis nos testes atuais, abre-se espaço para novas abordagens no diagnóstico e tratamento.
E, acima de tudo, reforça-se a necessidade de decisões informadas, baseadas em evidência científica.
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